(Do livro Imigrante a duras penas): Os passageiros foram surpreendidos com uma nova visão: a presença de duas grandes baleias próximo ao barco. Isso fez com que corressem para a amurada. Não tinha como não sentir medo daqueles enormes cetáceos que pareciam ter perto de quinze metros de comprimento. Estavam quase encostando no casco do navio.

              Fazia cinco semanas, que apenas tinham visto água por todos os lados. Subitamente surgiram gaivotas. Era o sinal de que a terra estava próxima. Após ouvirem um grito de “terra à vista”) do alto do mastro, os passageiros, aos poucos começaram a observar uma linha um pouco mais escura demarcando o horizonte. Era o “Novo Mundo”. Por ali o perigo de naufrágio era muito grande. Há poucos anos um outro grupo de emigrantes, depois de uma tempestade no mar, teve seu barco lançado contra os recifes. Muitos pereceram. Os sobreviventes refugiaram-se em algum lugar na selva.

               O calor parecia estar diminuindo, afinal, era o inverno do hemisfério sul. No início e no final do dia fazia frio. Com isso todos voltaram a dormir em seus beliches. Faltavam dois dias para seis semanas desde a última parada para abastecimento, quando o navio finalmente se aproximou da baía de entrada do porto de Vitória, capital da Província do Divino Espírito Santo. Todos, tanto os passageiros como os tripulantes, estavam aliviados, porém muito cansados. Alguns haviam perdido familiares durante a travessia.

                Era impossível uma maior aproximação da costa.

               O navio lançou âncora na enseada em frente à baía de acesso ao canal do porto de Vitória. Assim que clareou o dia, um bote foi baixado e um grupo de seis marinheiros seguiu até Porto Velho, localizado no lado esquerdo do canal. Foram a procura de um piloto que pudesse conduzir o navio até o cais do porto de Vitória. O mar continuava revolto e, não conhecendo os detalhes do canal de acesso, o capitão considerou prudente esperar pela orientação de um capitão local. Soube-se que em outras viagens os navios atracaram em Porto Velho e os passageiros foram reembarcados em pequenos botes e conduzidos até uma hospedaria na capital da província. Entretanto, como o navio A BORSING era um veleiro de menor calado, poderia seguir diretamente até a entrada do canal, de onde seria puxado com a ajuda de batelões conduzidos por remadores do porto.

Ilha de Vitória. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-40422004000300004&lng=en&nrm=iso&tlng=pt

 Na medida em que o sol da alvorada iluminava a costa, uma fantástica paisagem se descortinava diante dos olhos dos recém-chegados. No lado esquerdo, uma edificação muito semelhante aos castelos do vale do Reno, coroava o alto de uma montanha rochosa. O reflexo das suas paredes, provavelmente tingidas de um calcário branco contrastava com o escuro da rocha e o azul do céu.

            Dos tripulantes, souberam tratar-se da sede de um secular convento/fortaleza construído pelos jesuítas, nas proximidades do povoado de Porto Velho. Depois de quase um dia de espera, as âncoras foram finalmente recolhidas. Junto com a maré alta, um vento soprando em direção à costa foi de grande ajuda. O fluxo das águas do mar fez com que o barco com apenas poucas velas içadas, deslizasse suavemente em direção ao seu porto seguro.

Cartão Postal Convento Penha Vila Velha Espírito Santo https://produto.mercadolivre.com.br/MLB-1037221183-carto-postal-convento-penha-vila-velha-espirito-santo-_JM

              Também no dia seguinte não autorizaram o desembarque. O navio havia sido transformado em uma prisão insuportável. Sentiam-se encarcerados sem ao menos saberem porquê. Estavam em um país estranho, cujo povo desconheciam e cujo idioma não entendiam. Para surpresa de todos, as autoridades portuárias mandaram recolher os documentos pessoais dos passageiros. Corria a notícia de que o governo estaria retendo os papéis de identificação com receio de que alguém tentasse retornar em algum navio. Agora estavam sem os seus documentos e sem dinheiro para uma viagem de retorno. Nada restava que não fosse esperar.

              A paisagem tropical era muito diferente das que estavam acostumados a ver. No lado direito havia algumas ilhas. A mais interna, como se soube mais tarde, chamada Ilha da Fumaça, tinha sido transformada em uma hospedaria para a redistribuição dos imigrantes. Pouco adiante, também no lado direito, uma sólida fortaleza ao pé de uma montanha contrastava com um ameaçador desfiladeiro rochoso do lado oposto. O navio passou entre aqueles dois gigantes, ignorando os canhões do forte que pareciam adormecidos.

               Por toda parte via-se uma vegetação verde escura balançando ao vento do mar e iluminada pelo sol do final da tarde. A emoção tomou conta de todos. Parecia Canaã, a terra prometida.

              Finalmente, as âncoras despencaram sobre as pequenas ondas do porto. À frente, o cais terminava nos primeiros degraus de uma ampla escadaria, no topo da qual se visualizava a ampla edificação do Palácio Anchieta. Essa imensa construção anteriormente tinha sido um colégio jesuíta. Agora, depois de reformado, passara a ser a sede do Governo da Província. Ao seu redor, como uma moldura, a cidade de Vitória, apesar do seu modesto tamanho, misturava o vermelho das telhas ao verde musgo das encostas da montanha rochosa.

              A maioria das pessoas que avistavam era de cor preta. Eram escravos, que trabalhavam nas docas. Diversos guardas armados controlavam a movimentação do cais do porto.

              Todos ansiavam por sair. Receberam a informação de que ainda não tinha chegado o momento do desembarque. O mau odor causado por mais de dois meses sem banho e sem qualquer cuidado com a higiene pessoal fazia com que todos se sentissem sujos. A espera parecia se transformar em eternidade.

Mapa antigo da região do assentamento da Colonia de Santa Leopoldina, na então Província de Espírito Santo